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Poder x Justiça - Uma Análise sobre Scandal

  • 15 de set. de 2017
  • 5 min de leitura

Scandal tem tudo o que uma boa peça de entretenimento pede: Personagens carismáticos, reviravoltas interessantes e surpreendentes, drama, romance e um roteiro bem feito.



Porém, engana-se quem pensa que a série de autoria de Shonda Rhimes se resume a isso.


Aproveitando que falta menos de um mês para a estréia da sétima e última temporada, decidi escrever um artigo de opinião sobre a série, com o objetivo de explorar, o que eu acredito ser, o verdadeiro tema da obra de Rhimes: Um embate entre Justiça e Poder.


(OBVIAMENTE CONTÉM SPOILERS!)



Olivia Pope é o que chamam de "Fixer". A advogada é renomada em Washington por resolver problemas e esconder escândalos de pessoas ricas, celebridades, políticos. Porém, enquanto resolve os problemas dos outros, Olivia convive com o seu, que, se cai na mídia, viraria o maior escândalo de todos: seu affair com o Presidente dos Estados Unidos, Fitzgerald Grant III, que, por sua vez, é casado com a primeira-dama Mellie Grant.



O que mais me atrai na série de Shonda é que justamente aquilo que deveria ser o maior e problemático clichê de toda a televisão e cinema hollywoodiana (e brasileira também!), que é a briga entre duas mulheres pela atenção de um homem acaba tomando caminhos extremamente interessantes. O embate entre Mellie e Olivia não se resumem ao amor e à atenção de Fitz (claro, isso tá presente também, mas não é o fio condutor). A briga entre as duas, e que acaba envolvendo o chefe de gabinete de Fitz, Cyrus Beene e, conforme as temporadas avançam, mais nomes vão sendo aderidos nessa lista de envolvidos é sobre poder.


E, além de ser uma briga por poder, Mellie e Olivia são a salvação uma da outra. Sem Olivia, Fitz começou a abandonar o seu posto, querendo, inclusive, não concorrer às eleições. Mellie precisou recorrer à ex-amante de seu marido para que as coisas voltassem a ser como eram.




Por sua vez, Olivia, quando tornou-se a 'oficial' de Fitz, após a oficialização do divórcio dele e de Mellie, percebeu que ele estar disponível para ela significava que ela estaria indisponível para sua vida de antes, para seu trabalho, para sua liberdade. E estaria fadada a conversar com socialites fúteis e desinteressantes, ao invés de fazer o que ela é realmente boa em fazer. Nem governar o país pelas mãos de Fitz estava conseguindo suprir essa falta de liberdade.


Uma salvava a outra. Enquanto Mellie estava com Fitz, Olivia podia ser quem ela era. Enquanto Olivia estava com FItz, Mellie podia governar o país e pensar em tornar-se, de fato, Presidenta dos Estados Unidos. Não à toa, as duas acabam se unindo para tal missão: eleger Mellie a primeira mulher Presidente do país




Pra mim, Fitz não passa de uma metáfora. Ele é o Presidente de uma das maiores nações do mundo. Porém, não consegue tomar decisões por conta própria e, muitas vezes, recorre à Olivia, ou à Mellie, ou à Abby (que acaba virando sua chefe de gabinete após a demissão de Cyrus), ou à sua vice-presidente, a não-tão-inexperiente-quanto-parece Susan Ross, ou, até mesmo, à chefe de gabinete de sua vice, Elizabeth North. Ele foi eleito duas vezes. E, nas duas vezes, não teria ganhado as eleições sem o a ajuda e interferência de Olivia. Na primeira, inclusive, ele só ganhou graças à uma fraude feita pelas pessoas que o rodeavam. Fitz é extremamente dependente de seus aliados.


Fitzgerald Grant é a forma de Shonda Rhimes atacar essa noção de que o Presidente é quem governa. Basta olhar pro cenário político de nosso país que isso fica bem evidente. Como alguém como Temer, por exemplo, continua no poder, mesmo com uma aprovação tão baixa? Muito simples: Não é o povo que decide quem fica ou quem sai. E não é o presidente que toma decisões. Quem decide como manter um governo ou como acabar com o mesmo são os deputados e senadores. E tornar-se refém da Câmara e do Senado é a forma mais fácil de ser deposto (vide o que aconteceu com a ex-presidenta Dilma Rousseff).


Agora, se o presidente, sozinho, não toma as decisões, é óbvio que o posto de quem vai tomar as decisões por ele vai ser contestado. E é justamente nesse ponto que queria chegar. Olivia, Mellie, Cyrus, Liz North, Abby. Todos eles disputam, quase que constantemente, o poder. Seja ele através do controle da presidência; seja ele através de coordenar tudo pelas sombras.


Outro elemento que, pra mim, funciona como uma metáfora para o poder, mas não só pra ele em si, mas para, também, como o poder corrompe as pessoas é o próprio Salão Oval. Elizabeth North passou a perna em Cyrus para ficar com o cargo dele. Cyrus, pra retornar ao seu cargo, passou a perna nela. Tudo para que, logo na primeira oportunidade real, Abby passasse a perna nele e ficasse com o cargo de Chefe de Gabinete. Além disso, Abby, para provar-se como um monstro de verdade e com dentes afiados, foi capaz de trair Olivia, até então sua ex-chefe e melhor amiga, para proteger a presidência e derrubar a candidatura de Mellie. Mellie, inclusive, já tinha amado Fitz no passado. Mas, com o passar dos anos, com a chegada no Salão Oval junto ao marido e com as inúmeras vezes em que ele a traiu com Olivia, ela acabou sendo tomada por um desejo quase obsessivo de tornar-se Presidenta dos Estados Unidos. E Olivia, que tinha o poder na sua agência, após passar um tempo na Casa Branca, e, depois, voltar à sua vida anterior, passou a querer de volta aquele poder que tinha deixado pra trás, e vê em Mellie a chance de retornar à Casa Branca.


Todos eles passaram pelo mesmo dilema: escolher entre justiça ou poder. Abby podia ter guardado o segredo de Cyrus, ou podia pensar em uma nova estratégia junto à Olivia. Olivia podia ter deixado à Casa Branca e retornar à sua carreira de resolver problemas alheios. O próprio David Rosen, que começa a série sendo um análogo perdedor de Olivia, acaba cedendo e abandonando seus princípios de justiça e do que é, de fato, certo, para tornar-se Procurador Geral da República.


Agora, enquanto há esse constante embate entre justiça e poder, entre 'vestir o chapéu branco' ou 'virar o comando', há uma pessoa, e somente uma pessoa, em toda Scandal, que está acima desse dilema: Rowan, ou Eli Pope. Enquanto os outros lidam com as consequências desses embates, Rowan está acima; é ele que, de fato, governa e comanda o país. Fitz está abaixo dele e quem o controla, também. É ele quem dita as regras do jogo. E é ele que nunca cai. Ele é o verdadeiro e único comando. Ele está acima da justiça, e é a própria representação do poder.





 
 
 

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